quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Entrevista: Lisa Alves, autora de "Arame Farpado"



Entrevista por Daniel Russell Ribas

1 - Como surgiu o livro "Arame Farpado"? 

"Arame Farpado" é uma obra que surgiu sem a pretensão de ser. Cada poema do livro tem um contexto e tempo diferenciados e foram compostos fora de uma imagem de série. Contudo chegou um tempo em que resolvi triar uns trezentos poemas escritos ao longo de dez anos. E em oitenta e um poemas consegui discernir uma conexão: todos transportavam a metáfora do "Arame Farpado". 

2) As minorias são tema de diversos poemas. Isto foi intencional ou algo que surgiu na composição da obra?

Todos os poemas são intencionais. E falar de minorias não é só falar do gay, do índio, do negro, da mulher, mas antes de tudo é falar do meu território. O Brasil viveu e ainda vive em uma situação de subordinação socioeconômica, política e cultural. 

3) Você acha que a literatura deve ser política?

Não. Apesar disso eu consigo afirmar que toda literatura é política. Mesmo se tratando de literatura erótica ou de um diário de um beberrão comedor de putas.  Lembrando que política é um termo imensamente vasto.

4) Além de poeta, você escreve prosa. Existe uma diferença para você na forma como trabalha estes formatos?

Sim. Eu me sinto mais livre com a poesia, livre até da palavra. Já a prosa exige muito (principalmente disciplina). Talvez por isso não tenha produzido tanto quanto produzi poemas. Tenho duas novelas incompletas, dois projetos de livros de contos parados. Mas eu tenho a sensação que até no segundo semestre de 2016 concluo meu livro de contos. 

5) Qual é a importância de eventos culturais, coletivos e divulgação literária atualmente?

Os eventos culturais têm o papel de aproximar a população do bem cultural e é essencial para formação de públicos. Os coletivos estão surgindo como cooperativas do bem e a tendência é que comecem a questionar a questão dos direitos autorais. O que, diga-se de passagem, já está passando da hora. A indústria cultural no Brasil é bilionária e a maior parte dessa riqueza retirada de um bem cultural sempre cai nas mãos das mesmas pessoas. Até quando seremos o escritor ou artista operário com duas jornadas de trabalho (quando não mais)? Devemos lembrar que o maior bem de um livro é o seu conteúdo. E voltando aos coletivos, eles tem dado um levante na questão das publicações independentes. Escritores estão gerando ISBN, diagramando e contratando as mesmas gráficas que a editoras utilizam (quando já não têm o maquinário). Eu acho que no atual contexto em que vivemos e com o processo de evolução das sociedades para a autogestão o autor naturalmente se tornará um profissional independente. As próprias editoras (e me refiro as grandes, as sanguessugas mesmo) estão exigindo que os escritores façam o trabalho de venda, que participem das feiras, mesmo quando o autor não tem absolutamente nada para dizer ou nenhum talento que não seja a escrita (que já é um grande talento). Tenho encontrado muitos autores insatisfeitos com o universo editorial. Muitos se sentem enganados, explorados e é um sentimento bem comum nas conversas que tive (tanto sobre pequenas e grandes editoras). Eu sigo a seguinte filosofia: se é para fazer quase tudo, então eu faço tudo.
Sobre a divulgação literária hoje creio que é bem mais ampla e rápida, é só saber utilizar as ferramentas de maneira certa. A rede social e os blogs no meu caso foram essenciais.
Só aproveitando o espaço:  em breve O Coletivo Púcaro vai disponibilizar aulas de diagramação de livros no site e na página do face [www.facebook.com/coletivopucaro?fref=ts]. É só seguir a página e aguardar.



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